A hipnose vem sendo pesquisada mundialmente por instituições sérias como Universidades, hospitais e institutos por profissionais da área médica e psicológica.

Uma pesquisa feita pelo psicólogo Guy Montgomery, da Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova York, em 2007, demonstrou que 15 min. de hipnose antes de realizar cirurgias de câncer de mama possibilitou que as pacientes apresentassem diminuição de sintomas de dor e náuseas durante o processo pós-cirúrgico, possibilitando uma economia de U$772 dólares por paciente, já que ela necessitaram de doses menores de analgésicos e sedativos.
No Brasil, o Hospital São Camilo de São Paulo vem realizando o trabalho de hipnose clínica desde 2008. Eles têm obtido sucesso em reduzir a ansiedade de paciente claustrofóbicos que necessitam passar por exames de ressonância magnética e também no caso de pacientes com dores crônicas, náuseas e tabagismo.
O Hospital das Clínicas em São Paulo vem utilizando a hipnose desde 1995 para auxiliar no tratamento de pacientes com ansiedade, dores crônicas, em trabalhos de parto e também como auxílio em casos de sedação para cirurgias de pequeno e grande porte.A perspectiva de unificar clínica e ciência trouxe um problema considerável para a psicologia clínica: não seria possível efetivar um acesso privilegiado e único ao real, já que esse ramo da psicologia se encontrava dividido em diversas escolas. Como as exigências do paradigma dominante rezavam o acesso a uma realidade única (Demo, 1997; Morin, 1991; Santos, 1987) tal diversidade colocava a psicologia clínica numa posição incômoda já que não havia meios que pudessem garantir a hegemonia de uma escola sobre as outras. Não lhe havia sido possível a fabricação de um contexto como o laboratório, em que os pareceres distintos e contrários deveriam ser calados diante das provas experimentais (Neubern, 2004; Stengers, 1995). Tal quadro trouxe uma contradição incômoda, pois enquanto a psicologia clínica ganhou espaços sociais e reconhecimento científico, ela jamais pôde atingir, como não o puderam as ciências humanas e sociais, o status da confiabilidade científica das ciências duras, permanecendo a meio caminho de um reconhecimento integral (Neubern, 2003).
As consequências desse mal estar podem ser compreendidas sob duas dimensões altamente integradas. Por um lado, as noções dominantes do projeto científico foram adotadas de modo particular pelas diferentes escolas, que lhe conferiram uma compreensão própria e continuaram alimentando as rivalidades entre si. O isomorfismo, a tendência universalista e a ênfase no patológico consistiram em noções constantes em praticamente todas escolas de inspiração moderna (Gergen, 1996; Neubern, 2001).
Mas, ao mesmo tempo, como essa pretensão de acesso isomórfico ao real mantinha-se questionável, a autoridade dos mestres fundadores ganhou relevo cada vez maior, o que conferiu grande influência à dimensão institucional. É justamente nesse ponto que o tema da hipnose assume uma considerável importância, pois toma para si um papel de denúncia das contradições e fragilidades existentes na tentativa de uma psicologia clínica enfim científica (Chertok & Stengers, 1999; Stengers, 2001).
Mas, ao mesmo tempo, como essa pretensão de acesso isomórfico ao real mantinha-se questionável, a autoridade dos mestres fundadores ganhou relevo cada vez maior, o que conferiu grande influência à dimensão institucional. É justamente nesse ponto que o tema da hipnose assume uma considerável importância, pois toma para si um papel de denúncia das contradições e fragilidades existentes na tentativa de uma psicologia clínica enfim científica (Chertok & Stengers, 1999; Stengers, 2001).
Associando-se a noções epistemológicas marginais como a influência (ao invés da neutralidade), o passageiro (ao invés do definitivo), a criação (ao invés do fato) e o ilusório (ao invés da essência), a hipnose se tornou um objeto de estudo ameaçador capaz de colocar em risco os já comprometidos alicerces que os psicólogos começavam a construir em sua pretensão de ciência. Em termos de instituição e práticas sociais, essa denúncia também mostrou que, sob bases precárias, muitos acontecimentos históricos foram negados ou obscurecidos em nome de um conhecimento científico que integralmente jamais foi atingido. Em outras palavras, em nome da própria razão foi preciso que muitos argumentos fossem evitados, uma vez que esses poderiam levar a incisivos questionamentos sobre a coerência dessa mesma razão.
A relação entre hipnose e psicologia clínica pode ser compreendida como um processo que se iniciou no entusiasmo e culminou no ostracismo. Essa trajetória, a bem dizer abrupta, pode ser reconhecida em Freud sem maiores dificuldades, pois o método inicialmente eleito por ele para a cura dos doentes nervosos (Freud, 1888-1892/1996a), ao longo de seu trabalho, passou a ser considerado como algo oposto e até indesejável à consecução de um conhecimento confiável e efetivo em termos de terapia e ciência (1905/1996b, 1917/1996d).
A relação entre hipnose e psicologia clínica pode ser compreendida como um processo que se iniciou no entusiasmo e culminou no ostracismo. Essa trajetória, a bem dizer abrupta, pode ser reconhecida em Freud sem maiores dificuldades, pois o método inicialmente eleito por ele para a cura dos doentes nervosos (Freud, 1888-1892/1996a), ao longo de seu trabalho, passou a ser considerado como algo oposto e até indesejável à consecução de um conhecimento confiável e efetivo em termos de terapia e ciência (1905/1996b, 1917/1996d).
Os impactos desse processo para o reconhecimento da hipnose em termos clínicos e epistemológicos foram drásticos em diversos sentidos (Neubern, 2004). Por um lado, ela se tornou uma espécie de tema maldito, com a qual a psicologia clínica só poderia reconhecer parentesco nos livros de história. Não é sem razões que as não muito numerosas referências que lhe são conferidas (Figueiredo, 1992; Marx & Hillix, 1963/1978; Schultz & Schultz, 1969/1981) a situam como um passado longínquo e pré-científico, como um tema já superado que praticamente não encontra espaço nas escolas dominantes e discussões atuais. Contudo, o estigma da maldição também passou a incidir sobre a hipnose em termos de abordagem e técnica, situando-a como técnica ineficaz e superficial que jamais atingiria a causa dos problemas, permitindo a substituição de sintomas, como um procedimento caracterizado pela submissão ao terapeuta, como um processo vicioso e que poderia induzir a condutas perigosas (Melchior, 1998; Yapko, 1992). Enfim, além dos riscos com as quais estaria implicada, a hipnose não teria nada a acrescentar diante da diversidade de escolas e técnicas desenvolvidas após sua derrocada.No entanto, o que muitas vezes passa desapercebido nas discussões sobre a ciência relacionada a temas complexos como esse é que além das certezas freqüentemente existem as contradições que são evitadas e escondidas para que essas mesmas certezas não sejam ameaçadas. Tal é o caso da relação de Freud (1917/1996d) com a hipnose.
O que o perturbava sobremaneira não era apenas a eficácia duvidosa do procedimento, mas principalmente a confiabilidade das lembranças evocadas pelos sujeitos (Chertok & Stengers, 1999). Isso porque havia sempre presente a perspectiva de que essas lembranças fossem frutos de mera sugestão ou da complacência dos sujeitos em relação a seus estimados médicos. Foi assim que a noção de um inconsciente independente que resiste ao outro ganhou um papel fundamental, pois ao mesmo tempo em que poderia resistir ao desejo e às sugestões do terapeuta, ele estaria além das intenções e da vontade dos próprios sujeitos, podendo até contrariar as expectativas de ambos (Chertok & Stengers; Stengers, 2001). Desse modo, o inconsciente psicanalítico ganhava o estatuto de um legítimo objeto de estudo, podendo comparar o setting analítico a um laboratório clínico que, embora rompesse com a psicologia experimental em muitos aspectos, apresentava como esta a pretensão de um conhecimento confiável e superior aos demais. Sendo possível um acesso confiável e realista ao mundo psíquico além dos sintomas e aparências, seria possível também esperar um processo de cura mais efetivo e confiável, tal como o pretendia o cientista no que se refere ao controle dos fenômenos da natureza. Nessa perspectiva, podem ser encontradas, ao longo da obra de Freud (1905/1996b, 1912/1996c, 1917/1996d), importantes passagens que asseguravam a superioridade e oposição do método psicanalítico quanto aos métodos sugestivos.
Entretanto, o golpe de força consistiu em uma espécie de distanciamento sistemático quanto a questionamentos que poderiam ser subversivos ao edifício nascente da psicanálise. De um certo modo, a própria noção de transferência, que falava de um interjogo de forças com o inconsciente, poderia abrir questões incômodas no sentido de fazer ressaltar que o processo não se tratava simplesmente de uma revelação do mundo psíquico, mas de uma influência mútua que não deixava de lado seu parentesco com a sugestão (Chertok, 1989). Não é sem razões que alguns autores da reflexão pós-moderna (Gergen, 1996; McNamme & Gergen, 1995/1998) fazem uma crítica acentuada à reprodução de discursos e narrativas que os clientes passam a fazer a partir de uma relação terapêutica, o que não deixa de recolocar em questão o problema da complacência. Ou seja, mesmo que as psicoterapias em geral possuam uma proposta realista elas não consistem em um laboratório, mas implicam em relações humanas onde não é possível escapar das influências e sugestões mútuas.
Contudo, esse não era o único ponto polêmico. Já ao final de sua vida, Freud (1937/1996f) destacou que as curas operadas pela psicanálise não seriam mais efetivas, duradouras e convincentes do que as de outros métodos. Isso não propiciou o mesmo impacto epistemológico do afã científico inicial e, em conseqüência, não permitiu que o problema da hipnose fosse revisitado. Embora o acesso privilegiado ao psíquico pretendido pela psicanálise fosse colocado sob suspeita, a maldição sobre a hipnose estava já lançada e a instituição psicanalítica dela dependia sobremaneira para se manter firme. Importava apenas que o Freud (1905/1996b) inicial da psicanálise se mantivesse vivo no seu projeto de desvendar de modo confiável e científico as profundezas do inconsciente, de tal modo que nem mesmo o fundador da psicanálise pudesse revisar certos pontos de suas próprias construções (Chertok & Stengers, 1999).
Assim é possível perceber que o casamento entre a instituição psicanalítica e a noção de realidade foi decisivo para a compreensão da hipnose como processo terapêutico falho e objeto de estudo científico impossível. A hipnose era por demais ligada ao engano, à ilusão, ao incerto e ao fugidio das relações humanas, sem contar que seu parentesco histórico com o magnetismo e o espiritismo (Carroy, 1991; Meheust, 1999) pareciam transformar essa busca do real em um considerável pesadelo. Isso era bastante contrário à pretensão de acesso a uma realidade a-temporal, invariável e independente do contexto sócio-cultural, tal como rezava a vulgata da razão científica (Gonzalez Rey, 1996; Santos, 1987). Entretanto, esse mesmo tema impróprio consistia em uma denúncia contra o pensamento clínico nascente, que aspirando se submeter a esta razão, evitava o diálogo e as incômodas questões levantadas pela obra dos hipnotizadores. Assim, o que realmente importava não era apenas isolar esse tema impróprio, mas destiná-lo ao silêncio, situando-o em torno de preconceitos que desestimulassem os eventuais impulsos da própria curiosidade científica. A história da psicologia clínica precisava começar a ser escrita associada às luzes da razão e livre de quaisquer máculas.
Entretanto, o golpe de força consistiu em uma espécie de distanciamento sistemático quanto a questionamentos que poderiam ser subversivos ao edifício nascente da psicanálise. De um certo modo, a própria noção de transferência, que falava de um interjogo de forças com o inconsciente, poderia abrir questões incômodas no sentido de fazer ressaltar que o processo não se tratava simplesmente de uma revelação do mundo psíquico, mas de uma influência mútua que não deixava de lado seu parentesco com a sugestão (Chertok, 1989). Não é sem razões que alguns autores da reflexão pós-moderna (Gergen, 1996; McNamme & Gergen, 1995/1998) fazem uma crítica acentuada à reprodução de discursos e narrativas que os clientes passam a fazer a partir de uma relação terapêutica, o que não deixa de recolocar em questão o problema da complacência. Ou seja, mesmo que as psicoterapias em geral possuam uma proposta realista elas não consistem em um laboratório, mas implicam em relações humanas onde não é possível escapar das influências e sugestões mútuas.
Contudo, esse não era o único ponto polêmico. Já ao final de sua vida, Freud (1937/1996f) destacou que as curas operadas pela psicanálise não seriam mais efetivas, duradouras e convincentes do que as de outros métodos. Isso não propiciou o mesmo impacto epistemológico do afã científico inicial e, em conseqüência, não permitiu que o problema da hipnose fosse revisitado. Embora o acesso privilegiado ao psíquico pretendido pela psicanálise fosse colocado sob suspeita, a maldição sobre a hipnose estava já lançada e a instituição psicanalítica dela dependia sobremaneira para se manter firme. Importava apenas que o Freud (1905/1996b) inicial da psicanálise se mantivesse vivo no seu projeto de desvendar de modo confiável e científico as profundezas do inconsciente, de tal modo que nem mesmo o fundador da psicanálise pudesse revisar certos pontos de suas próprias construções (Chertok & Stengers, 1999).
Assim é possível perceber que o casamento entre a instituição psicanalítica e a noção de realidade foi decisivo para a compreensão da hipnose como processo terapêutico falho e objeto de estudo científico impossível. A hipnose era por demais ligada ao engano, à ilusão, ao incerto e ao fugidio das relações humanas, sem contar que seu parentesco histórico com o magnetismo e o espiritismo (Carroy, 1991; Meheust, 1999) pareciam transformar essa busca do real em um considerável pesadelo. Isso era bastante contrário à pretensão de acesso a uma realidade a-temporal, invariável e independente do contexto sócio-cultural, tal como rezava a vulgata da razão científica (Gonzalez Rey, 1996; Santos, 1987). Entretanto, esse mesmo tema impróprio consistia em uma denúncia contra o pensamento clínico nascente, que aspirando se submeter a esta razão, evitava o diálogo e as incômodas questões levantadas pela obra dos hipnotizadores. Assim, o que realmente importava não era apenas isolar esse tema impróprio, mas destiná-lo ao silêncio, situando-o em torno de preconceitos que desestimulassem os eventuais impulsos da própria curiosidade científica. A história da psicologia clínica precisava começar a ser escrita associada às luzes da razão e livre de quaisquer máculas.
Referências bibliográficas
Anderson, A., & Goolishian, H. (1993). O cliente é o especialista. Nova Perspectiva Sistêmica, 3, 8 – 24. [ Links ]
Bellet, P. (1992). L'Hypnose. Paris: Odile-Jacob. [ Links ]
Bernheim, H. (1995). Hypnose, suggestion et psychothérapie. Paris: Fayard. (Original publicado em 1891) [ Links ]
Borc-Jacobsen, M., & Dufresne, T. (2001). Rétour à Delboeuf? Ethnopsy, 3, 69 – 88. [ Links ]
Carroy, J. (1991). Hypnose, suggestion et psychologie. L'Invention du sujet. Paris: Puf. [ Links ]
Carroy, J. (1993). Magnétisme, hypnose et philosophie. In I. Stengers (Ed.), Importance de l'hypnose (pp. 169 – 192). Paris: Le Plessis-Robinson. [ Links ]
Castilho, J. (2002). A vida e a técnica de Sigmund Freud: As bases para a psicanálise infantil. Dissertação de Mestrado não-publicada, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica, Universidade de Brasília, DF. [ Links ]
Chertok, L. (1989). Hypnose et suggestion. Paris: Puf. [ Links ]
Chertok, L., & Stengers, I. (1999). La blessure narcissique. Paris: Le Plessis Robinson. [ Links ]
Delboeuf, J. (1993). Le magnétisme animal. À propos d'une visite à l'Ecole de Nancy. Paris: Fayard. (Original publicado em 1890) [ Links ]
Demo, P. (1997). Conhecimento moderno. Petrópolis, RJ: Vozes. [ Links ]
Erickson, M., & Rossi, E. (1979). Hypnotherapy: An exploratory casebook. New York: Irvington. [ Links ]
Erickson, M., & Rossi, E. (1980). The collected papers of Milton H. Erickson, MD. New York: Irvington. [ Links ]
Figueiredo, L. (1992). A invenção do psicológico. São Paulo, SP: Escuta. [ Links ]
Figueiredo, L., & Santi, P. (2002). Psicologia: Uma nova (re) introdução. São Paulo, SP: Editora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. [ Links ]
Freud, S. (1996a). Artigos sobre hipnotismo e sugestão. (J. O Aguiar Abreu, Trad.). In J. Salomão (Ed.), Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Vol. 1 (pp. 111–120). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Original publicado em 1888-1892) [ Links ]
Freud, S. (1996b). Sobre a psicoterapia (J. O Aguiar Abreu, Trad.). In J. Salomão (Ed.), Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Vol. 7 (pp. 239–251). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Original publicado em 1905) [ Links ]
Freud, S. (1996c). Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (J. O Aguiar Abreu, Trad.). In J. Salomão (Ed.), Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Vol. 12 (pp. 147–162). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Original publicado em 1912) [ Links ]
Freud, S. (1996d). A terapia analítica. (J. O Aguiar Abreu, Trad.). In J. Salomão (Ed.), Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Vol. 16 (pp. 523– 539). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Original publicado em 1917) [ Links ]
Freud, S. (1996e). Psicologia de grupo e análise do ego (J. O Aguiar Abreu, Trad.). In J. Salomão (Ed.), Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Vol. 18 (pp. 89–183). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Original publicado em 1921) [ Links ]
Freud, S. (1996f). Análise terminável e interminável (J. O Aguiar Abreu, Trad.). In J. Salomão (Ed.), Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Vol. 23 (pp. 247–287). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Original publicado em 1937) [ Links ]
Gergen, K. (1996). Realidad y relaciones. Barcelona, España: Paidós. [ Links ]
Comentários
Postar um comentário